quinta-feira, 10 de março de 2011

Um pouco suficiente

Era um dia como outro qualquer, o que o tornava "especial" é que ele havia tirado o para arrumar sua casa. Resolveu ir de fora para dentro: começar na sala e terminar no banheiro do seu quarto. Mas na cozinha não tinha permissão de tocar em nada, se não Verinha, sua "babá", enlouqueceria.
Passou pela sala de "TV", tirou filmes antigos, almofadas estragadas, forrou seu sofá com um pano e mudou a televisão de lugar. Depois a sala de estar: trocou a ordem dos porta-retratos, pôs alguns livros novos na estante e bombons na bomboniere.
Chegando ao escritório preferiu começar pelo armário das fotos: separando-as em bolos distintos - por ocasião, ano ou família - para montar álbuns depois. Mas notou que algumas fotos não se encaixavam nas pilhas já existentes: estavam em muitas ocasiões, por muitos anos, mas, de repente, essas pessoas pararam de aparecer nas fotos, e eram de uma família, mas não de sangue. Ele demorou um pouco para perceber quem eram, mas, como disse Sheakspeare, aqueles pessoas faziam parte da família que ele escolheu na sua infância: amigos da época da escola.
Tentou lembrar por que pararam de se falar, entretanto o esforço foi em vão: a cada tentativa, começava a rir de como eram felizes, de todas as besteiras que falavam e do quão tolos os seus problemas eram. Resolveu então fazer um mural, para nunca mais esquecê-los. Escreveu várias cartas para mandar juntas à casa de sua mãe e, assim, ela as destribuiria, já que de onde estava jamais poderia entregá-las.
Ele começou a sentir-se triste e sozinho. Algumas das cartas saíram com letras trêmulas e outras um pouco úmidas, assim que as leu, começou a pensar que aquele era o fim. Mas, depois, foi tomado por uma alegria imensa: ele devia ficar feliz porque durou o suficiente para ser inesquecível, não devia sentir a melancolia que antes o dominava, só porque durou tão pouco. Já que aquele pouco valeu a pena.

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